19-05-2011

Paris, Julho de 1966

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Era mais uma noite abafada daquele verão parisiense quando Elizabeth Taylor atende a porta do quarto em seu hotel. Alguém enviara um telegrama naquela tarde... Montgomery Clift, o grande astro de Hollywood, havia sido encontrado morto em seu apartamento, jogado entre móveis fora do lugar e cortinas entreabertas. Sabendo da notícia, Liz Taylor tentou pegar o último jato de Paris a Nova York, mas todos os vôos foram cancelados repentinamente, era como se tudo fosse um grande esquema de azar. Nada mais restava a Sra. Taylor do que olhar pela janela de seu hotel, além de admirar os carros que passavam pela praça iluminada pelas luzes da cidade. Era como se ainda fosse verdade. Os dois, Montgomery Clift e Liz Taylor, atuaram juntos no filme ‘Um Lugar ao Sol’ quinze anos atrás. A história era sobre um jovem de classe-baixa chamado George Eastman (Montgomery Clift) recém chegado a Manhattan procurando por um emprego na fábrica de seu tio, que após engravidar uma colega de trabalho, se apaixona perdidamente pela afortunada e famosa Ângela, justamente a personagem de Liz Taylor...

- Serviço de quarto? Preciso de um táxi, é possível isso agora? – um silêncio travou a fala da atriz – Está bem, sem problemas. Quando o meu carro chegar, podem me avisar, por favor? - disse Liz ao telefone para a recepção.

No início, os dois foram grandes amantes, mas logo depois, um grande sentimento de amizade invadiu ambos, e de apaixonados passaram a ser confidentes. De amantes para cúmplices. Longas noites, festas, viagens, garrafas de Whisky, prêmios, escândalos, eram duas crianças malvadas. Aquela era a amizade mais provocante do século.

- Seu táxi está esperando, Madame. – dizia o cara da recepção a Liz pelo telefone.

Sozinha e usando um vestindo branco como uma noiva, Elizabeth Taylor cruzava de carro as ruas da Paris iluminada as duas da manhã. As ruas tortuosas e estreitas apertavam o coração da famosa atriz, mas a beleza dos prédios trazia a sua respiração até o último fôlego. Em alguns minutos, o táxi a levava para a rua mais tendenciosa da França: a Rua Oberkampf. Bares lotados, risadas altas e música. Sacando um dinheiro em sua bolsa, pagou o motorista.

- Você tem fogo? – indagou ao taxista para acender seu cigarro.

Exalando fumaça enquanto fumava, a jovem entrou em um bar com uma fachada iluminada destacando um cartaz sobre uma apresentação de uma cantora local. Liz Taylor admirava a forma com que a mulher que entoava a melodia das canções, e pedindo um champagne permaneceu ali por toda a madrugada, até que de repente seus pensamentos incendiaram sua excitação, afinal ela era apenas uma criança malvada. Pegando uma caneta em sua bolsa, começou a escrever uma carta em um guardanapo.

''Estou na estação Oberkampf ouvindo uma última canção em um bar. A cantora é a última estrela das ruas de Paris cuja voz entoa uma música que as estrelas lhe haviam ensinado. Tomo minha cerveja barata olhando para a mulher que joga seus cabelos conforme a mudança da melodia, mas também não posso parar de vislumbrar o teto cheio de fumaça vindo dos cigarros dos homens que gritam enquanto fumam dizendo coisas que só eles entendem num dialeto qualquer.

Não sabia o motivo, mas os versos da canção me recordavam coisas que expressavam figuras perdidas num daqueles horizontes que os aviões sempre deixam para trás. Se aquela era a última canção da minha noite decadente, esta foi a que me fez pensar em meu amigo problemático. Por um momento, até cogitei que seria melhor estar em Nova York em seu apartamento do que aqui em Oberkampf, neste bar tendencioso cheio de pseudo-intelectuais e vítimas da moda. Estaria escutando a última canção de Paris ou pensando em como iria te dar o meu último adeus?

Já não faz muito tempo, porque realmente faz uma eternidade. O ano era 1951, e tinha em mãos uma taça naquela noite enquanto o via vagar pelo salão de baile procurando por um lugar ao Sol. Todos já sabiam que eu havia nascido com os louros da riqueza, pois minha alma resplandecia em ouro, mas meu olhar brilhava em luzes que não vinham dos meus olhos.

Também imaginei que ainda procurava por um emprego naquela fábrica imunda. Mas perguntei-me se o que realmente desejava era um emprego ou uma aventura, pois como um poeta da classe trabalhadora poderia estar nesta festa cheia de pérolas e diamantes? Este seria o seu último e mais grandioso devaneio ou meu mais doce sonho que jamais poderia repetir nem nos mais contraditórios e levianos pensamentos? Ora, o Sol pode ainda não ter chegado, porém quem disse que as estrelas não são habitáveis, e quem alguma vez negou que a Lua não é o lugar para duas pessoas como nós? E ainda exijo provas concretas de que os filmes de Hollywood não são histórias reais e factíveis.

Talvez não possa morar em Nova York como naquela película em preto e branco. Contudo, meu querido amigo problemático, contigo pude encontrar meu lugar ao Sol no abismo que me encurralava. Toda vez que me olhava era como se o brilho do dia ultrapassasse as barreiras da minha mente limitada. Não vou pensar sobre quando o filme acabou, quero apenas relembrar de seu rosto deitado na cama pela manhã com seu mau hálito de caviar misturado com bebida barata.

Agora, depois de tantas décadas que fazem 1951 tão distante, apenas resta a eu unir-me à melodia deste bar na Rua Oberkampf. Uma última canção, um último adeus. Depois de tantas e inúmeras taças de vinho, prêmios e colunas de jornais, alguns se atrevem a dizer que serei a última estrela de Hollywood, entretanto, mal posso afirmar sobre tal destino... Meu cigarro já está acabando e a música também, pois ouço os últimos acordes das teclas do piano deslizando nos vocais da cantora. A noite parisiense chega ao fim com seus bêbados que logo estarão urinando pelas calçadas da cidade. Meu amigo Montgomery, não há ninguém como você. O que posso dizer agora? Ora, eu não sei, mas minha última angústia nos últimos dias foi o fato de que gostaria de estar em seu apartamento fumando um bom cigarro em vez de estar tomando cerveja, talvez seja porque neste momento meu espírito está desmoronando em plena estação Oberkampf. Poetas escrevem, cantores exclamam, atores apenas dizem palavras interpretadas, mas ninguém jamais ousou dizer a verdade sobre como a vida é tão feliz, tão sombria. Talvez esta não seja uma obrigação artística. Dia e noite, serei somente eu para sempre. Nada mais.

Sei que quando o dia raiar outra vez aqui em Paris, nós estaremos em nosso lugar ao Sol, assim como estivemos naquele filme de algumas décadas atrás. E assim, a última tecla do piano toca o último acorde.''

Je t'embrasse
Liz Taylor





17-04-2011

Meus Dias em Paris

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Faz um bom tempo que não atualizo este meu espaço de opinião e expressão na internet. Mas sabem, às vezes você precisa ficar um tempo longe para poder ter novas idéias e trazer novas concepções. Um tempo justamente para repensar, embora muitas vezes ‘pensar’ seja a única coisa que você pode fazer durante horas. Depois de meses pensando, de planejamento, finalmente realizei um projeto de vida: ir à Paris. O primeiro contato que tive com a idéia foi quando tinha 10 anos, na quarta série. Eu havia escrito uma redação sobre um lápis viajante que subia a Torre Eiffel (única coisa que conhecia da cidade naquela época). Pergunto-me sobre o paradeiro de tal redação nos dias atuais, apenas recordo-me que era uma folha de papel timbrado e com um lápis sorridente que eu mesmo desenhei.

Depois desta redação, continuei escrevendo outras, e numa bela tarde de uma semana ensolarada, quando tinha 13 anos, saindo da aula de Educação Física, deparei-me com a Biblioteca Municipal na avenida cheia de carros e contaminada pelo mormaço daquele calor que quase me fazia derreter de suor. Ao ver o estabelecimento, decidi entrar e procurar por um dicionário de Francês. A bibliotecária me entregou um livro amarelado, com páginas empoeiradas e mordidas por traças. Levado pela curiosidade, quase pensei que aquele livro poderia ser um catálogo de pergaminhos do Egito Antigo de tão antigo que era o dicionário. Porém, quando comecei a folhear as páginas fiquei fascinado pelas palavras difíceis e ficava imaginando qual seria o som das mesmas, o sotaque, e se realmente tinha que colocar ‘biquinho’ em cada frase pronunciada. No dia seguinte na escola, já havia dito para todos os meus colegas de sala que era fluente em Francês. Embora, só soubesse dizer ‘obrigado / merci’ ou ‘Até logo/ A bien tôt’, já causava furor entre todos os alunos que se dividiam ao me chamar de ‘garoto prodígio’, enquanto outros me bolinavam atribuindo nomes como ‘estranho’ ou ‘excêntrico’. Mas nenhuma das opiniões me causava diferença ou indiferença, pois a mim, o que realmente importava era o prazer em dizer palavras num idioma desconhecido, como se tudo fosse um jogo de diversão e aprendizado. Acho que este sempre foi meu lado nerd de ser.

Foi então que decidi finalmente ir a Paris. E assim, isto virou uma meta. Apenas me recordo dos livros de poesia de Arthur Rimbaud, e o verso que tanto me inspirou ‘Nunca somos sérios quando temos 17 anos’. Ainda posso sentir o entusiasmo com que assisti ‘ O Fabuloso Destino de Amélie Poulain’, a emoção misturada com decepção que senti quando vi ‘O Código da Vinci’, ou também, o dia que matei aula para ver o filme da Edith Piaf ( Piaf – Um Hino ao Amor) ainda no Ensino Médio. E sim, as músicas! Quantas músicas escutei e quantas desavenças não causei com as mesmas? Pois, entendo que muitas vezes a Música Francesa funcione somente com os franceses, sem querer ser presunçoso. E o que dizer das grandes marcas que sempre conheci e via os comercias? Sobre os inúmeros documentários? Para alguns sempre é inexplicável ou até mesmo sem razão uma paixão por um país marcado pelo Neo-Colonialismo na África, tipicamente conhecido por possuir pessoas esnobes e ultranacionalistas. Afinal, de contas o que há de tão diferente em Paris? Porque tanto idealizar uma metrópole como qualquer outra no mundo, com asfalto, carros, prédios antigos e pessoas normais como nós? Porque tanto amor a uma cidade como esta, a mesma com que o dramaturgo Marivaux se inspirou ao citar a frase ‘Paris é o mundo. O resto do planeta Terra é o seu subúrbio’? mundo.jpg

Posso dizer que logo quando cheguei a Paris, ao pedir informação num balcão do aeroporto Charles de Gaulle, deparei-me com uma forte constatação: sim, na França se fala Francês, e se pode falar a vontade porque os franceses adoram o idioma de seu país. Ao cruzar as ruas de táxi, ao andar a pé nas avenidas no frio da manhã, ao admirar o pôr-do-Sol do Rio Sena, ao subir na Torre Eiffel, ao entrar na Catedral de Notre- Dame, ao entrar nos bares e restaurantes, ao caminhar pelo bairro do Marais e ao visitar o Palácio de Versalhes, eu já soube de tudo. Não existe nenhuma explicação ou razão para amar Paris, nenhuma explicação lógica e óbvia. Logo me dei conta de que já tinha estado em Paris muito antes de chegar lá. Minha primeira vez em Paris foi aos dez anos quando escrevi a redação do lápis viajante, a segunda vez foi quando entrei na biblioteca procurando o dicionário de francês, sendo que voltei a Paris muita outras vezes quando via algum filme, ouvindo uma música, ou simplesmente vislumbrando uma foto num site de viagem na internet. Muito antes de estar em Paris admirando o Rio Sena, já tinha estado lá tantas incontáveis vezes de uma forma que não haveria como não se apaixonar. No filme da Edith Piaf, quase no final da película, uma jornalista diz a cantora que estava numa praia da Califórnia: ‘É estranho te ver longe de Paris’, por sua vez, Edith brilhantemente interpretada pela atriz Marion Cotillard responde: ‘Nunca estou longe de Paris’. Talvez esta seja a melhor explicação para os meus dias em Paris.

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26-01-2011

Antes de Tudo

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Todos perguntaram sobre mim. Todos me questionaram sobre o verdadeiro sentido que a minha vida possui. O filósofo Jean Paul Sartre sentado no Café de Flore diria que a vida não tem um senso próprio, que estamos aqui vagando sem uma conseqüência, sem um ato final que pudesse definir nossa existência como significante e imortal. Afinal, a morte seria justamente a continuação da vida ‘sans moi’ (sem mim). Mas enquanto a vida não continua sem mim, o que poderia eu cogitar sobre uma existência maior do que o meu próprio ser?

Se tornar jovem (no sentido mais puro do termo) é uma das tarefas mais árduas que o ser humano carrega durante sua vida. Muitas pessoas associam a juventude como uma época de brincadeiras, alegrias, festas e romances como naqueles filmes afetados da Disney. Penso que a adolescência também inclui todos estes fatores que nos influenciam diretamente para a vida toda. Aos meus 13 anos, eu via o mundo como Peter Parker do Homem-Aranha. Aos 15, descobri meu lado religioso e me tornei militante católico, até me recordo do discurso que o Senhor Ratzinger pronunciou diante de mim e de outras pessoas em São Paulo, em 2007. Aos 18, virei o cara das baladas. Aos 19, me tornei uma espécie de fenômeno cult, mesmo que isto fosse uma coisa muito mais interna do que externa. Portanto, aprendi que estou situado em um conjunto de sensação de dores e alegrias indescritíveis. E aos 20, decidi continuar a vida comigo mesmo, de todas as maneiras em que um ser pode se esvair e se contrair naquilo que transparece sua essência. Pelo menos é o que desejo sentir quando chegar a ter duas décadas completadas de existência.

Olhando para um retrato de um jovem chamado Yves Saint Laurent, o grande estilista revolucionário do século XX, consigo ouvir suas palavras em uma de suas inúmeras entrevistas, numa das quais ao som chiado das gravações antigas dos anos 70, ele dizia:
‘O que gostaria de fazer é me tornar bem, bem, bem jovem de novo, pois eu não tinha... Quero dizer, eu tinha muitas responsabilidades imediatas, e o que queria é agir estupidamente antes de ser sábio!”

Para sermos então sábios teríamos então que ser jovens. Antes de adquirir qualquer sabedoria teríamos que ter nossos momentos e instantes de uma exuberante e picante alegria? Vejo diante de mim histórias que se desenrolam seguindo os mesmos moldes clichês, e muitas pessoas parecem não aprenderem com os desfechos tão previsíveis que muitas vezes se sucedem, e no final das contas elas agem estupidamente como Yves Saint Laurent desejava e não o fez. Mas agir não- inteligentemente seria o caminho para se chegar ao sentido da vida tão discutido por Sartre? Pois eu tenho que admitir que a ignorância e a estupidez sejam fatores necessários para a existência humana até conseguirmos entender que somos estúpidos e assim alcançar a tal sabedoria. Haverá ainda muitas garrafas de vodka e champagne Rouet & Chandon, como também muitos foras e pés na bunda que daremos e tomaremos, além de incontáveis risadas e discussões, sonhos, conquistas e ressentimentos até termos consciência de que tudo não passa de um jogo de uma caminhada sem fim. Um caminho com ou sem sentido, dependendo de nós mesmos.

A definição que desejo ter para minha vida neste ano é viver o antes. Antes de tudo que me rodeia, antes que eu me consuma, antes que tudo continue sem o meu ‘eu’, antes que o pôr-do-Sol venha, antes da raiva, antes de amar, eu quero viver o antes de tudo. Pois, estamos diante de todos os pensamentos, estamos diante de nós mesmos. Ora, não seria o antes de tudo o tempo presente? Respire e resplandeça antes que o cosmos te coloque na total indiferença. Não existir somente, mas mergulhar em tudo que te cerca antes que o ‘antes’ acabe trazendo o depois que já não mais se altera.

De repente, veio em minha a mente o fato de que quando tudo está ensolarado, nós não podemos definir onde estão as luzes. É difícil discernir onde estão as estrelas, onde foi parar a Lua, sendo que as luzes das lâmpadas já não mais possuem serventia quando tudo está claro. Portanto, quando não é possível encontrar a luz que possa nos inspirar, é preciso ir para um lugar escuro e lá encontraremos a chama que poderá trazer não a verdade, mas aquele sentimento de estarmos vivos. É preciso ir para a cidade das luzes, a cidade das luzes ofuscantes e brilhantes antes que eu tenha 20 anos.

Com os olhos aos céus, ouço algumas palavras que ouvi serem recitadas na época de militante católico: ‘Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino’. Neste exato momento, apenas diria: ‘Antes de me tornar homem, me tornei jovem e antes disso me tornei todas as coisas estúpidas e transcendentais que sou’.